Poema 11
No amor que sentes põe só amor, mais nada.
Guarda ciúme para quem odeias.
E, se algum dia hás-de cortar as veias,
Seja a do tédio ou da renúncia a estrada
Que tu escolheres, não da paixão frustrada...
Pede à carne só carne, e não ideias;
Triste recurso de solteiras feias...
Reinaldo Ferreira
(Do arquivo de Pedro Valdoy)
Poema 10
Já me não basta morrer;
Tanto me falta a certeza
Que paro todo de ser
Na Vida sem mim ilesa.
Morrer é pouco. Destrói
A ordem do que, disperso
Apenas, logo constrói.
- Constante do Universo
Mas o mais! Essa energia
Contínua, que permanece,
Elo de nós, dia a dia...
Não sei pensar que ela cesse
Nem sei, de tanto que a sinto
- Alma não, que não a creio... -,
Se sou sincero ou se minto
Ébrio do próprio receio.
Reinaldo Ferreira
(Do arquivo de Pedro Valdoy)
9
Eu sou um ponto nascido
De duas linhas cruzadas;
Trouxe comigo um impulso
Que me deu a Natureza
Para seguir um caminho
E a trajectória marcada.
O que me espera!... Não sei.
Apenas sei que caminho,
Por um caminho de fel,
Para a certeza do Nada.
Comecei, era menino,
Sou cansado caminhante,
Serei velho peregrino,
E o nada sempre distante.
Reinaldo Ferreira
(Do arquivo de Pedro Valdoy)
8
Duas rectas que se cruzam,
Eis um ponto.
Esse ponto, em movimento,
Há-de ser recta também.
Essa recta e outra recta
Hão-de formar outro ponto,
Novo ponto, nova recta,
E sempre assim, sem remédio.
Reinaldo Ferreira
(Do Arquivo de Pedro Valdoy)
7
A Natureza espreitava
O desejo de meus pais.
E foi pedir ao destino
Que lhes cruzasse os caminhos
Que eles haviam de seguir.
Ah! pobre mãe!
Antes tivesses nascido
Toda crivada de espinhos,
Estéril como cardo seco!
Mas tinhas olhos de moira:
Um lírio branco murchou
E o teu ventre concebeu
Este farrapo que eu sou.
Reinaldo Ferreira
(Do Arquivo de Pedro Valdoy)
6
Olhos iguais, outro olhar,
Silêncios da mesma voz,
Memória vaga e lunar
Do Sol que fôssemos nós...
Assim erramos incertos,
Juntos, distantes, cansados,
Mordendo o pó dos desertos
Onde houve relvas e prados.
E a Vida escoa-se, enquanto
O tempo , alheio à vontade,
Desliza, remoto brando
Duma tranquila orfandade.
Ai de mim!
Que não pedi p´ra nascer
E sou forçado a viver!
Reinaldo Ferreira
(Do Arquivo de Pedro Valdoy)
5
Passos furtivos na escada
Da minha imaginação.
Sabendo-os frutos de nada
São reais com os que o são
Basta que os oiça e provocam
A minha insónia de assalto.
Se fujo, seguem-me, voam...
Se grito, gritam mais alto.
Por favor, bom senso - Não!
É resposta que eu não posso
De que serve a razão
Se não existe o que eu ouço?
Reinaldo Ferreira
(Do Arquivo de Pedro Valdoy)