terça-feira, 19 de julho de 2011

Poema 11

           Poema 11


No amor que sentes põe só amor, mais nada.
Guarda ciúme para quem odeias.
E, se algum dia hás-de cortar as veias,
Seja a do tédio ou da renúncia a estrada
Que tu escolheres, não da paixão frustrada...


Pede à carne só carne, e não ideias;
Triste recurso de solteiras feias...


Reinaldo Ferreira
(Do arquivo de Pedro Valdoy)

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Poema 10

      Poema 10


Já me não basta morrer;
Tanto me falta a certeza
Que paro todo de ser
Na Vida sem mim ilesa.


Morrer é pouco. Destrói
A ordem do que, disperso
Apenas, logo constrói.
- Constante do Universo


Mas o mais! Essa energia
Contínua, que permanece,
Elo de nós, dia a dia...
Não sei pensar que ela cesse


Nem sei, de tanto que a sinto
- Alma não, que não a creio... -,
Se sou sincero ou se minto
Ébrio do próprio receio.


Reinaldo Ferreira
(Do arquivo de Pedro Valdoy)

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Poema de Reinaldo Ferreira

                9


Eu sou um ponto nascido
De duas linhas cruzadas;
Trouxe comigo um impulso
Que me deu a Natureza
Para seguir um caminho
E a trajectória marcada.
O que me espera!... Não sei.
Apenas sei que caminho,
Por um caminho de fel,
Para a certeza do Nada.
Comecei, era menino,
Sou cansado caminhante,
Serei velho peregrino,
E o nada sempre distante.


Reinaldo Ferreira
(Do arquivo de Pedro Valdoy)

quinta-feira, 31 de março de 2011

Poema de Reinaldo Ferreira

                 8


Duas rectas que se cruzam,
Eis um ponto.
Esse ponto, em movimento,
Há-de ser recta também.
Essa recta e outra recta
Hão-de formar outro ponto,
Novo ponto, nova recta,
E sempre assim, sem remédio.


Reinaldo Ferreira
(Do Arquivo de Pedro Valdoy)

domingo, 13 de março de 2011

Poema de Reinaldo Ferreira


                7


A Natureza espreitava
O desejo de meus pais.
E foi pedir ao destino
Que lhes cruzasse os caminhos
Que eles haviam de seguir.
Ah! pobre mãe!
Antes tivesses nascido
Toda crivada de espinhos,
Estéril como cardo seco!
Mas tinhas olhos de moira:
Um lírio branco murchou
E o teu ventre concebeu
Este farrapo que eu sou.


Reinaldo Ferreira


(Do Arquivo de Pedro Valdoy)




sábado, 5 de março de 2011

Poema de Reinaldo Ferreira

                6


Olhos iguais, outro olhar,
Silêncios da mesma voz,
Memória vaga e lunar
Do Sol que fôssemos nós...


Assim erramos incertos,
Juntos, distantes, cansados,
Mordendo o pó dos desertos
Onde houve relvas e prados.


E a Vida escoa-se, enquanto
O tempo , alheio à vontade,
Desliza, remoto  brando
Duma tranquila orfandade.


Ai de mim!
Que não pedi p´ra nascer
E sou forçado a viver!


Reinaldo Ferreira


(Do Arquivo de Pedro Valdoy) 

quinta-feira, 3 de março de 2011

Poema de Reinaldo Ferreira

                  5


Passos furtivos na escada
Da minha imaginação.
Sabendo-os frutos de nada
São reais com os que o são


Basta que os oiça e provocam
A minha insónia de assalto.
Se fujo, seguem-me, voam...
Se grito, gritam mais alto.


Por favor, bom senso - Não!
É resposta que eu não posso
De que serve a razão
Se não existe o que eu ouço?


Reinaldo Ferreira


(Do Arquivo de Pedro Valdoy)

quarta-feira, 2 de março de 2011

Poema de Reinaldo Ferreira

                          4


Oh! vós, que dominais vossos instintos
Como se fossem cavalos!
Oh! vós que os amestrais, para exibi-los
Como se fossem ursos!
Oh! vós que, infantigáveis domadores de impulsos,
Exibindo-os, colheis aplausos, contratos e elogios!
Glória a vós! Glória a vós, represadores
Do caudal,
Que eu não domino,
Do real.
Glória a vós dominadores do natural!


Reinaldo Ferreira


(Do Arquivo de Pedro Valdoy)

terça-feira, 1 de março de 2011

Poema de Reinaldo Ferreira

                      3

Eu, Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia
Que partout, everywhere, em toda a parte,
A vida égale, idêntica, the same,
É sempre um esforço inútil,
Um voo cego a nada.
Mas dancemos; dancemos
Já que temos
A valsa começada
E o Nada:
Deve acabar-se também,
Como todas as coisas.
Tu pensas
Nas vantagens imensas
Dum par
Que paga sem falar;
Eu, nauseado e grogue,
Eu penso, vê lá bem,
Em Arles e na orelha de Van Gogh
E assim entre o que eu penso e o que tu sentes
A ponte que nos une - é estar ausentes.

Reinaldo Ferreira

(Do arquivo de Pedro Valdoy)

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Poema de Reinaldo Ferreira

                          2

Se eu pudesse guardar os teus sentidos
Numa caixa de prata e de cristal,
Entre conchas do mar, búzios partidos,
Pequenas coisas sem valor real...


Se eu pudesse viver anos perdidos
Contigo, numa ilhota de coral,
Para além dos espaços conhecidos,
Mais longe do que a aurora boreal...


Se eu soubesse que o olhar de toda a gente
Te via, por milagre, repelente,
Que fugiam de ti como da peste...


Nem assim abrandava o meu ciúme,
Que é afinal o natural perfume
Da flor do grande amor que tu me deste.

Reinaldo Ferreira 

(do Arquivo de Pedro Valdoy)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Poema de Reinaldo Ferreira

                   1
Quero um cavalo de várias cores,
Quero-o depressa, que vou partir.
Esperam-me prados com tantas flores,
Que só cavalos de várias cores
Podem servir.

Quero uma sela feita de restos
Dalguma nuvem que ande no céu,
Quero-a evasiva - nimbos e cerros -
Sobre os valados, sobre os aterros,
Que o mundo é meu.

Quero que as rédeas façam prodígios:
Voa, cavalo, galopa mais,
Trepa às camadas do céu sem fundo
Rumo àquele ponto, exterior ao mundo,
Para onde tendem as catedrais.

Deixem que eu parta, agora, já,
Antes que murchem todas as flores.
Tenho a loucura, sei o caminho
Mas como posso partir sózinho
Sem um cavalo de várias cores?
Reinaldo Ferreira
(Dos Arquivos de Pedro Valdoy)